Desabafos
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Autor Tópico: O teu dia  (Lida 173 vezes)
ughh
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« em: Novembro 28, 2011, 12:41:57 »

Estás linda. Não que algum dia te tenha visto feia. Já te vi logo ao acordar, de olhos ainda colados, e juro-te que estavas linda. Mas hoje estás especialmente linda. Muitos dirão que é por causa do vestido branco, alguma despeitada pode dizer que é da maquilhagem, mas eu vejo-te através disso tudo, linda, com esse brilho que todas as noivas têm, aquele olhar brilhante e sorriso rasgado que diz “hoje é o MEU dia”. Se queres saber a verdade, por muito efeminado que possa parecer, está como eu sonhei que estarias. Excepto num pequeno ponto: a teu lado, segurando a tua mão, estaria eu.
Mas não estou, o sol queima-me as costas, os sapatos estreados hoje torturam-me os pés e eu procuro qualquer coisa que me anime. De repente uma frase pendura-se no ar: “…ou fale agora ou se cale para sempre.”. Um arrepio percorre a minha espinha. Respiro fundo involuntariamente como antes de um mergulho profundo. O teu padrinho olha para mim, atento. O que será que ele sabe? Sem querer, um sorriso derrotado enfeita a minha boca. Ele sorri de volta. O que será que ele sabe?
Ninguém diz nada e tudo continua. Ele diz sim, tu dizes sim, soltam um beijo envergonhado perante a multidão e eu viro a cara. Alguns discursos depois tu e o teu marido sorriem para todos e os parabéns começam. As palmas das minhas mãos estão suadas. Sinto-me nervoso como se te estivesse a cumprimentar pela primeira vez.
Estás linda. Trocamos palavras vazias de desejos de felicidades enquanto a minha companheira oferece os parabéns ao teu marido. Sinto-me culpado perante os dois só por te olhar como te olho agora, por te abraçar como te abraço agora, por me demorar um pouco os meus lábios na tua face.
Solto-te e qualquer coisa me deixou um gosto de despedida.
Aperto a mão ao teu marido enquanto lhe agarro calorosamente o braço. Cabrão. Seria tão mais fácil se o odiasse… Mas os meu votos de felicidades são sinceros.
A noite dura e a minha face de facto dói de tanto sorriso forçado. Partilho bebida com o nosso mais velho amigo comum. Também os seus olhos brilham, também o seu sorriso sai por vezes forçado. E eu sei porquê… Cabrão… Mas não consigo ficar de mal com ele. Afinal, não sei o que fazes, mas a culpa é tua.
Afogamos memórias em álcool, partilhamos outras que teimam em flutuar, apreciamos-te os dois e comentamos como a idade te fez apenas bem. Pareces-me cada vez mais longe, como se te visse num filme em que a câmara se afasta ao som da música. Aproveito o sentimento para me distanciar, pegar em tudo o que me fazes sentir e empurrar tudo para o fundo com um golo do champanhe que me ofereceste.
A minha oportunidade passou, se é que algum dia a tive quando fomos mais próximos. Odeio-me pela cobardia de nunca ter conseguido descobri-lo. Mas agora é tarde demais. Espero, do fundo de mim, que sejas feliz. E desculpa o meu egoísmo, mas não te quero ver outra vez. Não posso. Não consigo.
Prefiro deixar-te sem trocar muitas palavras, mas não resisto a um novo abraço. Não te quero largar. Quero te dizer que te amo e que, mesmo depois de hoje, que te vou continuar a amar. Mas não digo. Aproveito o entorpecer da bebida como anestesia para forçar um último sorriso. A voz sai-me rouca, mas o whisky e o charuto servem como desculpa:
“Estás linda… Adeus.”
No carro, enquanto te agradeço em silêncio por teres escolhido um local com uma estrada sem trânsito que me leva ao hotel, a minha companheira fala a meu lado, mas eu não a ouço. Lembro-me de uma cena de um filme e sorrio para mim próprio. Talvez um dia ganhe coragem e te apareça à porta de casa com um rádio e umas cartolinas para finalmente te dizer tudo. Ou talvez não. De certeza que não. Mas não interessa. Que sejas feliz que eu agora só quero dormir. Amanhã será outro dia e trezentos quilómetros estarão entre nós. Com sorte essa distância e a tua nova vida servirão de desculpa para eu não te ver. Não te vou esquecer, mas a vida continua. Já não tenho idade para fantasias nem esperanças de um final de filme cor-de-rosa para mim. Sei que foste aquela, mas também sei que nada posso fazer agora. Desaparece-me dos sonhos de uma vez por todas e deixa-me simplesmente dormir. Até mais.
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